TRÊS TEXTOS DE FRANCISCO SIMÕES

 CASA DA MÃE JOANA E OU... / O DISTRATO DOS DIREITOS DO HOMEM/A INTENÇAO DA SEMENTE

(Francisco Simões)

Posso contrariar algumas opiniões, mas, me desculpem, não aceito, não entendo, não me conformo com o tempo de TV e de tantas pessoas, desperdiçado com esses programas denominados de: "Casa dos Artistas" e "Big Brother Brasil".


O que mais me assusta não é nem a decisão da direção das duas emissoras, SBT e GLOBO, de os levar ao ar. Nisso não há qualquer novidade. Assusta-me sim o fato de que eles não rasgam dinheiro, portanto, se o fazem é porque têm a certeza de uma audiência que justifica o tal investimento nesse projeto.


Audiência significa grande parcela de nossa sociedade apoiando, assistindo, participando com telefonemas de norte a sul do Brasil, nas tais votações que excluem pessoas de tempos em tempos, etc. Que se passa na cabeça dessa gente? Que interesse têm em ficar a ver a intimidade de quem, no fundo, nem autenticidade tem?


Sim, porque dá bem para perceber que muito do que eles dizem, fazem, situações que criam, devem ser devidamente manipuladas de fora para dentro. Dirigidas, digamos assim, para levantar polêmicas, despertar curiosidades e assim ter o interesse de telespectadores que, durante aqueles longos minutos diários, poderiam ocupar bem melhor o seu tempo.


A mim pouco se me diz que os aludidos programas tenham se originado ou nos EUA ou na Europa. Isto não significa, absolutamente, indicativo de qualidade. Sei bem, por experiência própria, que a TV européia, de uma maneira geral, não é também nenhuma maravilha. Quanto à americana, idem. A TV brasileira, quando quer, faz criações excelentes. Já o fez antes, várias vezes.


Ademais, por que ter que copiar algo só porque veio com a "etiqueta" de produzido no exterior? Depois criticamos muito o programa do tal Ratinho. Meu Deus do céu, do jeito que o nível anda baixando, tanto na tal "Casa dos Artistas", como no tal de "Big Brother Brasil", não vejo muita diferença, pois o mau gosto é patente em ambos. E não só nesses programas.


Estamos caminhando para importantes eleições em nosso país, e fico imaginando como podemos exigir responsabilidade de milhões de brasileiros que se comprazem em desperdiçar tantas horas semanais de seu precioso tempo de vida para conhecerem o que se passa na intimidade de cerca de uma dezena de pessoas que aceitam ser os protagonistas de um espetáculo tão grotesco!


Mais, durante a programação de várias emissoras parece que existem horários em que as apresentadoras, ou apresentadores, ficam a comentar detalhes do relacionamento dos participantes, fofocas, futricas (com licença de FHC), fazem previsões e projeções de situações futuras que deverão ocorrer nos tais ambientes, etc. Quanto tempo de TV gasto da forma mais apropriada para deseducar nossa gente.


Para muitos políticos deve ser algo que interessa sobremaneira, pois é uma forma de ajudar a engessar a mente, portanto as idéias, o raciocínio de milhões de brasileiros que, por sua vez, acabam por gastar outro tanto tempo em discussões estéreis sobre os mesmos programas, pouco lhes sobrando para perceber o que se passa à sua volta, em sua realidade.


Bem, realidade, aliás, é palavra que está na classificação de programas em linha semelhante, também na TV americana. Eles são rotulados, em inglês, de "reality show"!! A linha de bisbilhotagem é realmente bem parecida, pelo que me disseram. Mas, o pior está por vir. Vejam o que li no jornal "O Público", de Portugal, a respeito disto:


"Um reality show feito com militares é a próxima aposta da ABC. O canal americano percebeu que não há nada que distraia mais do que a guerra e, por isso, já anunciou a estréia, para breve, em horário nobre, da série ‘Profiles from the Front Line’ (qualquer coisa como ‘Retratos da Linha de Frente’) que dará aos telespectadores um olhar da guerra por dentro."


Então, para os irmãos americanos, "não há nada que os distraia mais do que a guerra"?! E nós a criticarmos o mau gosto de tantos brasileiros que dão audiência a programas de tão baixo nível em várias de nossas emissoras de TV! O que mais me espanta é que a TV americana está a falar de guerra, de verdade, percebem? Caminho aberto para um tipo de "culto à guerra", ou à violência.


"Será uma homenagem às nossas forças armadas", garantiu Bruckheimer, produtor dos filmes "Con Air", "Top Gun" e "Pearl Harbour". Nada de mau se a intenção fosse apenas realçar qualidades como coragem, bravura, etc, dos militares, ou mesmo mostrá-los com suas famílias. Como já se vê pelos exemplos acima, há muita gente que gosta deste tipo de programa. Que fazer?


Ocorre que é uma coincidência muito grande o lançamento deste projeto logo agora que o governo americano tem partido para atitudes belicistas, intimidativas, a vários países. A força, ou o poder da mesma, virou "moeda de negociação", ou melhor, de imposição. Entre outras, aí está a questão do protecionismo à indústria do aço, americana. Rebela-se quem tem força para tanto, os demais dizem "sim", como falava meu avô, se tiverem juízo, ou sofrem sanções e ameaças de toda ordem.


Segundo a reportagem, o próprio Pentágono ira disponibilizar alguns vídeos exclusivamente para os tais programas. Reconhecendo o perigo de mostrarem a guerra, real, como "divertimento", pretendem pelo menos selecionar as cenas a serem exibidas. Claro que já começaram a surgir algumas críticas, dentro dos próprios EUA, feitas por pessoas responsáveis e de bom senso.


Por exemplo, Robert Thomas, da Universidade de Syracuse, em entrevista à Agência Reuters, acusou: "Vocês têm uma série de jornalistas que deveriam estar cobrindo estes acontecimentos, mas a eles são vedadas informações. Aí fazem um programa de divertimento que, integrado num acordo entre Hollywood e o Governo, terá, supostamente, acesso ilimitado com a condição de dar o retrato oficial da guerra."


Não obstante este e outros alertas, o pior a se admitir é que a idéia parece que vai avante com grandes possibilidades de sucesso. Uma prova é que outra emissora de TV americana, a VH1, segundo a reportagem de "O Público", já contratou o produtor de documentários R. J. Cutler (autor de "The War Room") para fazer o seu "reality show" militar que irá contar a história da Operação Liberdade Duradoura (Afeganistão), através de vídeos feitos pelos próprios militares.


O ministro da Defesa, Donald Rumsfeld e o vice-presidente Dick Cheney já teriam dado o seu de acordo, claro. Em verdade será o "reality show" da vida atual que para alguns agrada porque se distanciam, cada vez mais, dos anteriores discursos e promessas de paz mundial. Um amigo meu costuma dizer que o maior responsável por tudo é o próprio "bicho homem". Claro que é.


Felizmente nem todos os homens são "bichos". Estes, aliás, têm sempre muito a ensinar a nós, depredadores, filauciosos, bárbaros, cruentos, assassinos, mas tidos como "humanos". Por outro lado, a maioria dos seres de nossa espécie, ou os "bichos bons", são invariavelmente agredidos, intimidados, vilipendiados, ultrajados, chacinados, torturados, oprimidos, pela minoria dos "humanos" que detêm o poder.


O mesmo amigo me diz que "o mundo sempre foi assim, e nunca será diferente." Será mesmo? Sonhar com um mundo mais justo, é só utopia? Aceitar isto como fato consumado é de um conformismo que nega o direito e a essência humana de buscar novos caminhos. Ou como afirmou o grande Oscar Wilde: "Aos olhos de quem leu a História, a desobediência é a virtude original do homem. A desobediência permitiu o progresso – a desobediência é a rebelião."


Mas, voltando ao tema principal, o que impingem agora a nossa gente, pela Globo e pelo SBT, são duas versões pioradas daquilo a que costumamos classificar popularmente como sendo a "Casa da Mãe Joana".


Quanto ao novo projeto de "reality show", da TV americana, certamente será uma espécie de "Big Nuclear Brother", ou uma co-produção de hollywood em parceria com os homens e as idéias dos atuais governantes dos EUA, cuja política externa atual parece se resumir em promover conflitos.


Afinal já gastaram dezenas de bilhões de dólares, mataram muitos afegãos e tiveram soldados mortos, mas nem sequer desconfiam onde se encontra o seu "inimigo nº 1", ou o Sr. Bin Laden. Será que este novo "investimento", via TV, visa a algum lucro ou apenas os votos de que precisa o governo nas próximas eleições americanas?!

Francisco Simões. (Março/2002)

 

O DISTRATO DOS DIREITOS DO HOMEM


Em abril de 1964, o poeta brasileiro Thiago de Mello escreveu "Os Estatutos do Homem". Eles fazem parte do livro, do mesmo autor, "Faz escuro mas eu canto."


No presente momento parece que alguns desejam mergulhar a humanidade numa escuridão sem precedentes. Nela só poderão cantar os que têm olhos, mas não enxergam, têm coração, mas não o escutam. O poeta não terá motivos para cantar.


À época, Thiago assim definiu sua obra: "A poesia é uma arma contra as forças escuras, contra o império da injustiça, da arbitrariedade e do terrorismo." "Os Estatutos do Homem" são, acima de tudo, uma celebração da vida. É o poeta demonstrando fé no amanhã, nos valores eternos do homem e na sua indiscutível vocação para a paz, como está dito na abertura desta nova edição.


Em oposição ao pensamento e aos anseios do grande poeta estão aí as idéias, as ambições, o desejo intenso de poder, de conquistas, de supremacia, de expansão de alguns e também as pregações e os atentados do terror, seja de grupos radicais, seja de governos, não menos inflexíveis e radicalistas. Parece pretenderem escurecer nossos sonhos de paz, apagar o sol de nossas auroras de esperança.


O artigo primeiro dos "Estatutos" de Thiago de Mello diz: "Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira." Entretanto, as pessoas que andam se apossando do destino desse nosso mundo atualmente e o empurrando para tão escuros caminhos jamais entenderiam aquelas palavras.


Do cenário internacional atual, indo de Osama Bin Laden, a George Bush, passando por outros que também se arvoram em defensores da humanidade, mas que, com seu espírito belicista, poderão causar-lhe um mal ainda maior ao estabelecerem que a força substitui o diálogo, só vejo condições para eles escreverem o que seria "O Distrato dos Direitos do Homem".


Certamente o primeiro artigo imporia: "Fica decretado que agora vale a mentira. Agora vale a morte, e de mãos bem armadas, bombardearemos todos, explodiremos tudo pela paz verdadeira e duradoura e pela vida eterna, recompensada."


O artigo 4º dos "Estatutos" diz: "Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu."

Para os atuais senhores da vida e da morte, certamente a redação deste artigo seria algo assim: "Fica decretado que o homem desconfiará sempre do homem e o denunciará sem escrúpulos. O homem não confiará no homem que confia em ideais diferentes do seu, em princípios que colidem com os seus, em deuses que não sejam os seus, em valores que se contraponham aos seus."


O artigo 13º dos "Estatutos", por exemplo, diz: "Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou."


Já para a arrogância, o indecoro, o despudor e mesmo o fundamentalismo exacerbado, as determinações deveriam ser: "Fica decretado que o dinheiro comprará consciências, corações, alianças, opiniões e, se necessário for, condicionará o sol de todas as manhãs, impondo o medo e a morte. O dinheiro se manterá como uma afiada espada contra o direito de cantar, de sonhar e do pensamento e da palavra livres, até a festa final do capital ou da guerra santa."


A contabilidade dos atuais senhores da vida e da morte apenas considera vítimas de uma raça, de um credo, pelas quais continuam a clamar por justiça pelas próprias mãos, realimentando seu ódio irracional. Os muitos que sucumbam sob a ira de seus imensos pássaros de aço ou de suas emboscadas traiçoeiras, ainda que inocentes, são ignorados como seres humanos. Nem figuram como estatísticas.


Parece que os referidos senhores se deleitam em praticar o "esporte da guerra" numa olimpíada sadista que pretendem duradoura. O mesmo e primeiro pretexto que os lança a uma luta irracional, despreza a conformidade do direito e da justiça verdadeira, e os motiva a prosseguir na matança desmesurada e sem limites.


Os alvos poderão variar, mas a obsessão continuará tentando ocultar o rastro da própria incompetência. Quando faltam argumentos, aos medíocres resta usar o poder da força, já que a força da razão os intimida, os desnuda, os desmascara.


Preferem condenar o bom senso ao silêncio lúgubre e poltrão das masmorras que substituem suas consciências. E a cada eventual "vitória" só as suas próprias insanidades lhes permitirá celebração.


Isto mais se comprova, por exemplo, nas palavras de um general americano, o Sr. Tommy Franks, chefe do Comando Central das tropas que estão no Afeganistão. Declarou ele à imprensa: "Os Estados Unidos estão a caminho de acabar com o problema do terrorismo no mundo."


Com todo o respeito que S. Senhoria merece, suas palavras não traduzem nenhuma novidade. Fala a velha arrogância, a presunção, a estultice, a vaidade prepotente de quem acha que tudo pode, mas não tem tempo para pensar ou não tem interesse em.


Antes pudesse ser verdade, antes fosse tão fácil. Como acreditar nessa gabarolice, nessa fanfarrice do generalato, se as próprias autoridades americanas consideram que haja terroristas espalhados por cerca de 60 países? Só se repetirem, por muitas vezes, o exemplo lamentável que deram ao mundo ao soltar bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Por aquela ótica, realmente o general Tommy tem razão.


Traçar caminhos sensatos, soluções outras que passem pelas verdadeiras causas que motivam tanto terrorismo pelo mundo afora, certamente nem pensar. Aplicar os tantos bilhões de dólares queimados no Afeganistão e alhures, e os a queimar na continuação desta "guerra", na eliminação ou minimização da miséria, da fome, das doenças que anualmente matam tanto ou mais que essas guerras insanas, nem devem ocupar espaço nas idéias do general e de seus superiores.


General, (digo eu) não há efeitos sem causas, e sem eliminar estas os efeitos ainda estarão pelo mundo quando V. Senhoria e seus superiores hierárquicos tiverem se despedido da vida, deixando-a certamente pior do que a que temos aí e que já nos preocupa demais.


Trocar bombas, mísseis, por efetivas ajudas humanitárias, não lançadas sobre a cabeça das pessoas, mas que nasçam de extenuantes e sinceros diálogos, planejamentos, uma eqüitativa distribuição da riqueza hoje acumulada por tão poucos que hipocritamente oram e/ou choram por tantas vítimas de males que poderiam sim ser evitados em sua grande maioria, isto nem pensar, não é general?


O senhor já ouviu a música "Imagine", de John Lennon, claro. Sei que ouviu, mas deve achar um amontoado de bobagens utópicas, não? Não o culpo, algumas pessoas que conheço e a cantam também no fundo não acreditam na possibilidade de termos um mundo como ele sonhou. O senhor sonha, general? Não deve ter tempo para essas "tolices", certo?


Mahatma Gandhi disse: "A não-violência é o primeiro artigo da minha fé e é também o último artigo do meu credo." Um dia, um terrorista o matou. O senhor certamente mataria aquele terrorista, se pudesse, para salvar Ghandi, mas provavelmente se arrependeria depois se ouvisse palavras de admoestação do próprio Ghandi, não? Sei que é difícil de entender, ainda mais para quem tenha uma visão que não deve ir a mais de um palmo para além da mira de sua arma.


O Artigo 6º de "Os Estatutos do Homem" diz que: "Fica estabelecida, durante todos os séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora." No "Distrato dos Direitos do Homem", que imagino elaborados pelas pessoas aqui já referidas, este artigo deveria ter esta redação:


"Fica proibida, por todos os séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, pois a águia se juntará aos lobos e eles celebrarão juntos, reinarão juntos, dominarão juntos todos os pastos que puderem e jamais dividirão sua comida ou suas auroras com os cordeiros."


Enquanto o poeta acredita que seja possível a construção de uma sociedade humana solidária, os pretensiosos senhores da guerra escrevem solidariedade com bombas e mísseis. No final do artigo 12º dos "Estatutos", do poeta Thiago de Mello, está dito que: …"Só uma coisa fica proibida: amar sem amor."


Os atuais senhores do mundo amam, realmente amam muito, a si próprios e aos seus símbolos de poder e de riqueza. Aos que sobrevivem para além de suas fronteiras, o "resto do mundo", como eles dizem, só permitem e impõem mesmo é "O Distrato dos Direitos do Homem."


Francisco Simões (Janeiro/2001)

 

"A INTENÇÃO DA SEMENTE"


Hoje quero começar usando estas palavras que não são minhas: "Se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a sombra das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente."


Elas poderiam ter sido ditas por alguns ilustres pacifistas ou ganhadores do Prêmio Nobel da Paz. Mas quem as proferiu foi o querido e saudoso cartunista brasileiro: o Henfil. Hoje, entretanto, o mundo, estarrecido, prosta-se desconfiado das intenções das "sementes" que aí estão, a germinar o ódio, a morte, o terror, o desamor, e a prometer sempre mais, desgraças.


A humanidade está sendo empurrada para o precipício porque alguns homens, cristãos ou não, já nem respeitam a cidade onde Cristo nasceu, e nem sequer, a julgar pelo desenrolar das violências, o templo que marca o local onde o nascimento de Jesus teria ocorrido.


Terrorismo, palavra muito em moda atualmente, usado por tanques, aviões, mísseis, para combater o terrorismo dos homens-suicidas. Acabam todos mergulhando na escuridão da insensatez, da insanidade sem justificativas, impondo, uns aos outros, a sua vontade pelo uso sistemático do terror. Só há inocentes entre a maioria das vítimas que sucumbem.


Esta roda- viva parece não encontrar obstáculas para a deter. Todos os esforços de paz, desenvolvidos durante os dois mandatos do Presidente Clinton, acabaram por esfumaçar-se no presente clima de beligerância que começou logo após os atentados terroristas aos EUA em 11.09.2001.


Várias regiões, onde históricos conflitos estavam aparentemente pacificados, de repente explodiram e ganharam força no rastro dos discursos e atitudes do governo americano atual. A Europa, sua aliada, já se dá conta dos sérios riscos, pois o que estava contido nas fronteiras do oriente médio, já começa a dar sinais de se alastrar pelo mundo afora.


Na França, na Bélgica, na Alemanha, manifestantes, tanto pró Israel como pró Palestina, já começam a disseminar o terror e a se degladiar em várias cidades. Em outros continentes o mesmo está acontecendo.


Até nos EUA já ocorrem manifestações semelhantes. Alguns políticos e mesmo autoridades do Pentágono preocupam-se não apenas com este desenrolar, mas também com a tibieza do Sr. Bush em relação ao assunto. Ao se pronunciar ele costuma morder e soprar, tanto para um lado como para o outro.


Não toma uma posição firme porque não deseja desagradar Israel, mas, ao mesmo tempo, em que diz reconhecer que o Sr. Ariel Sharon teria o direito de defender seu povo contra os atos terroristas de palestinos suicidas, percebe, porém critica timidamente, os excessos que ele está cometendo contra todo um povo e não apenas contra grupos terroristas.


Mais sens

atez, equilíbrio e firmeza eu ouvi nas palavras do General Colin Powel quando, num pronunciamento há poucos dias atrás, declarou: "Existe atividade terrorista, nós a vemos diariamente. Mas o presidente Arafat é o chefe da Autoridade Palestina, uma organização que nós ajudamos a criar. Acreditamos que há muito mais que ele pode fazer e estamos pedindo que faça mais. E não serve ao nosso propósito, neste momento, dar a ele o rótulo de terrorista". Estas palavras foram um recado direto ao Sr. Ariel Sharon.


Na mesma fala, o general Powel conclamou o Sr. Sharon a refletir bem sobre as conseqüências do cerco militar isolando completamente Arafat. Reconheceu também que o líder palestino tem trabalhado, dentro do possível, no processo de paz. A imprensa internacional deu ampla divulgação ao seu pronunciamento.


O Sr. Bush vem sofrendo críticas até de senadores republicanos, caso de Arlen Specter, representante, no Senado, do estado da Pensilvânia. Alguns analistas políticos americanos o criticam severamente pelo que chamam de "incoerência estratégica", conforme li na coluna do jornalista Argemiro Ferreira.


Baseavam-se essas críticas, na ênfase dada por Bush e alguns de seus assessores mais diretos, visando a responsabilizar apenas o Sr. Arafat pelo aumento da violência e, simultaneamente, dizendo que "entende" que Ariel Sharon simplesmente vem exercendo o que chama de autodefesa de Israel.


De repente o Sr. Bush muda a direção de suas palavras, certamente pressionado por outras autoridades americanas e por ventos que sopram da União Européia, receosos com o desenrolar da violência. O Sr. Ariel Sharon ainda não se decidiu a obedecer às determinações dos EUA e esses têm com ele uma tolerância que não estendem a outros. Incentivaram-no, antes, a ir em frente nos seus ataques aos palestinos, agora parece estar difícil segurá-lo.


A verdade maior é que se o Sr. Sharon se queixa da violência de terroristas palestinos, presentemente, é certo que tudo ficará muito pior, fora de qualquer controle, caso ele consiga, isolando Arafat a ponto de nem poder ter acesso a medicamentos de que necessita para sua sobrevivência, levá-lo à morte. As conseqüências são imprevisíveis. A violência que está na raiz dos conflitos entre aqueles dois povos tenderá a se espalhar para muito além do Oriente Médio.


Numa arrogância plagiada na postura do presidente Bush, o Sr. Sharon recusou pedido do embaixador norte-americano, Dan Kutzer. Este queria que o Sr. Anthony Zinni, enviado dos EUA ao Oriente Médio, pudesse encontrar-se com Arafat. Cedeu, dois dias depois, após forte pressão dos EUA.


Jornalistas estrangeiros têm sido ameaçados por armas e tanques e expulsos de cidades palestinas por militares israelenses. Representates da ONU foram também impedidos de cumprir sua missão na região. Ambulâncias ficam impossibilitadas de socorrer vítimas e/ou recolher corpos, na maioria das vezes. Absurdo e desumano.


Esforçando-me para ser imparcial, mas não querendo parecer hipócrita, não posso deixar de perguntar se essas não são atitudes de um líder com tendência ao despotismo, à tirania, à opressão? E isso também não tem nada a ver com terrorismo oficial? E os EUA não estão determinados a combater qualquer tipo de terrorismo, onde ele estiver, e quem os desobedecer não estará contra eles?


No documento secreto, recentemente divulgado pelo jornal "Los Angeles Times", o governo americano se declara no direito de intervir, até com armas nucleares, num eventual conflito entre a China e Taiwan, por exemplo. Não julgo que tenha esse direito, absolutamente, mas não está superestimando uma disputa entre aqueles dois países e subestimando a gravíssima situação do oriente médio?


Permitam-me transcrever partes de um texto de autoria do sociólogo Baruch Kimmerling, integrante do movimento pacifista israelense, professor da Universidade Hebréia. O texto foi publicado no diário de Jerusalém Kol Há´Ir. Eu o li na coluna de Emir Sader, no nº 7, de "O Pasquim21". Ele começa assim:


"Eu acuso Ariel Sharon de criar um processo em que ele não apenas intensifica os massacres recíprocos, mas está instigando uma guerra regional e uma parcial ou quase completa limpeza étnica de árabes na ‘Terra de Israel’. Eu acuso todos os ministros do Partido Trabalhista nesse governo de cooperar na implementação da ‘visão’ fascista da extrema direita de Israel."


"Eu acuso a liderança palestina, e em primeira instância a Yasser Arafat, de uma visão tão extremamente de curto prazo que se tornou colaboradora dos planos de Sharon. Se há um segundo Naqba (Holocausto Palestino), esta liderança também estará entre suas causas." Mais adiante ele afirma: "Eu acuso todos os que vêem e sabem tudo isso de não fazer nada para prevenir a catástrofe atual."


Baruch termina seu texto dizendo: "E eu acuso a mim mesmo de saber de tudo isso, por gritar pouco e freqüentemente por me manter demasiadamente calmo." A íntegra deste texto poderá ser lida na edição "on line" do jornal, pelo site www.opasquim21.com.br na coluna de Emir Sader.


No dia 04.04.2002, fui com minha esposa à igreja de N. Sra. Da Paz, aqui em Ipanema, assistir à missa das 17:30 hs. Após ler um trecho do Evangelho, o conhecido padre Jorjão iniciou o seu sermão. A certa altura ele disse: "O cristianismo convence não pela força das armas, mas pela das palavras. O cristianismo conquista não pelo ódio, mas pelo amor."


Mais adiante afirmou: "O cristianismo nasceu de uma vitória da vida." Vida, este dom, este tesouro, esta dádiva de natureza divina, que parece valer pouco para alguns que andam a decidir sobre a vida e a morte, no mundo. Matam por quaisquer motivos e causas e condenam o diálogo, o entendimento, ao mutismo.


Atiram nos frutos, pisam nas flores, eliminam a sombra das folhas, porque menosprezam, porque não têm nenhum apreço pela intenção da semente: a vida.


Francisco Simões.