Posso contrariar algumas opiniões, mas, me desculpem,
não aceito, não entendo, não me conformo com
o tempo de TV e de tantas pessoas, desperdiçado com esses programas
denominados de: "Casa dos Artistas" e "Big Brother
Brasil".
O que mais me assusta não é nem a decisão da
direção das duas emissoras, SBT e GLOBO, de os levar
ao ar. Nisso não há qualquer novidade. Assusta-me sim
o fato de que eles não rasgam dinheiro, portanto, se o fazem
é porque têm a certeza de uma audiência que justifica
o tal investimento nesse projeto.
Audiência significa grande parcela de nossa sociedade apoiando,
assistindo, participando com telefonemas de norte a sul do Brasil,
nas tais votações que excluem pessoas de tempos em tempos,
etc. Que se passa na cabeça dessa gente? Que interesse têm
em ficar a ver a intimidade de quem, no fundo, nem autenticidade tem?
Sim, porque dá bem para perceber que muito do que eles dizem,
fazem, situações que criam, devem ser devidamente manipuladas
de fora para dentro. Dirigidas, digamos assim, para levantar polêmicas,
despertar curiosidades e assim ter o interesse de telespectadores
que, durante aqueles longos minutos diários, poderiam ocupar
bem melhor o seu tempo.
A mim pouco se me diz que os aludidos programas tenham se originado
ou nos EUA ou na Europa. Isto não significa, absolutamente,
indicativo de qualidade. Sei bem, por experiência própria,
que a TV européia, de uma maneira geral, não é
também nenhuma maravilha. Quanto à americana, idem.
A TV brasileira, quando quer, faz criações excelentes.
Já o fez antes, várias vezes.
Ademais, por que ter que copiar algo só porque veio com a "etiqueta"
de produzido no exterior? Depois criticamos muito o programa do tal
Ratinho. Meu Deus do céu, do jeito que o nível anda
baixando, tanto na tal "Casa dos Artistas", como no tal
de "Big Brother Brasil", não vejo muita diferença,
pois o mau gosto é patente em ambos. E não só
nesses programas.
Estamos caminhando para importantes eleições em nosso
país, e fico imaginando como podemos exigir responsabilidade
de milhões de brasileiros que se comprazem em desperdiçar
tantas horas semanais de seu precioso tempo de vida para conhecerem
o que se passa na intimidade de cerca de uma dezena de pessoas que
aceitam ser os protagonistas de um espetáculo tão grotesco!
Mais, durante a programação de várias emissoras
parece que existem horários em que as apresentadoras, ou apresentadores,
ficam a comentar detalhes do relacionamento dos participantes, fofocas,
futricas (com licença de FHC), fazem previsões e projeções
de situações futuras que deverão ocorrer nos
tais ambientes, etc. Quanto tempo de TV gasto da forma mais apropriada
para deseducar nossa gente.
Para muitos políticos deve ser algo que interessa sobremaneira,
pois é uma forma de ajudar a engessar a mente, portanto as
idéias, o raciocínio de milhões de brasileiros
que, por sua vez, acabam por gastar outro tanto tempo em discussões
estéreis sobre os mesmos programas, pouco lhes sobrando para
perceber o que se passa à sua volta, em sua realidade.
Bem, realidade, aliás, é palavra que está na
classificação de programas em linha semelhante, também
na TV americana. Eles são rotulados, em inglês, de "reality
show"!! A linha de bisbilhotagem é realmente bem parecida,
pelo que me disseram. Mas, o pior está por vir. Vejam o que
li no jornal "O Público", de Portugal, a respeito
disto:
"Um reality show feito com militares é a próxima
aposta da ABC. O canal americano percebeu que não há
nada que distraia mais do que a guerra e, por isso, já anunciou
a estréia, para breve, em horário nobre, da série
Profiles from the Front Line (qualquer coisa como Retratos
da Linha de Frente) que dará aos telespectadores um olhar
da guerra por dentro."
Então, para os irmãos americanos, "não há
nada que os distraia mais do que a guerra"?! E nós a criticarmos
o mau gosto de tantos brasileiros que dão audiência a
programas de tão baixo nível em várias de nossas
emissoras de TV! O que mais me espanta é que a TV americana
está a falar de guerra, de verdade, percebem? Caminho aberto
para um tipo de "culto à guerra", ou à violência.
"Será uma homenagem às nossas forças armadas",
garantiu Bruckheimer, produtor dos filmes "Con Air", "Top
Gun" e "Pearl Harbour". Nada de mau se a intenção
fosse apenas realçar qualidades como coragem, bravura, etc,
dos militares, ou mesmo mostrá-los com suas famílias.
Como já se vê pelos exemplos acima, há muita gente
que gosta deste tipo de programa. Que fazer?
Ocorre que é uma coincidência muito grande o lançamento
deste projeto logo agora que o governo americano tem partido para
atitudes belicistas, intimidativas, a vários países.
A força, ou o poder da mesma, virou "moeda de negociação",
ou melhor, de imposição. Entre outras, aí está
a questão do protecionismo à indústria do aço,
americana. Rebela-se quem tem força para tanto, os demais dizem
"sim", como falava meu avô, se tiverem juízo,
ou sofrem sanções e ameaças de toda ordem.
Segundo a reportagem, o próprio Pentágono ira disponibilizar
alguns vídeos exclusivamente para os tais programas. Reconhecendo
o perigo de mostrarem a guerra, real, como "divertimento",
pretendem pelo menos selecionar as cenas a serem exibidas. Claro que
já começaram a surgir algumas críticas, dentro
dos próprios EUA, feitas por pessoas responsáveis e
de bom senso.
Por exemplo, Robert Thomas, da Universidade de Syracuse, em entrevista
à Agência Reuters, acusou: "Vocês têm
uma série de jornalistas que deveriam estar cobrindo estes
acontecimentos, mas a eles são vedadas informações.
Aí fazem um programa de divertimento que, integrado num acordo
entre Hollywood e o Governo, terá, supostamente, acesso ilimitado
com a condição de dar o retrato oficial da guerra."
Não obstante este e outros alertas, o pior a se admitir é
que a idéia parece que vai avante com grandes possibilidades
de sucesso. Uma prova é que outra emissora de TV americana,
a VH1, segundo a reportagem de "O Público", já
contratou o produtor de documentários R. J. Cutler (autor de
"The War Room") para fazer o seu "reality show"
militar que irá contar a história da Operação
Liberdade Duradoura (Afeganistão), através de vídeos
feitos pelos próprios militares.
O ministro da Defesa, Donald Rumsfeld e o vice-presidente Dick Cheney
já teriam dado o seu de acordo, claro. Em verdade será
o "reality show" da vida atual que para alguns agrada porque
se distanciam, cada vez mais, dos anteriores discursos e promessas
de paz mundial. Um amigo meu costuma dizer que o maior responsável
por tudo é o próprio "bicho homem". Claro
que é.
Felizmente nem todos os homens são "bichos". Estes,
aliás, têm sempre muito a ensinar a nós, depredadores,
filauciosos, bárbaros, cruentos, assassinos, mas tidos como
"humanos". Por outro lado, a maioria dos seres de nossa
espécie, ou os "bichos bons", são invariavelmente
agredidos, intimidados, vilipendiados, ultrajados, chacinados, torturados,
oprimidos, pela minoria dos "humanos" que detêm o
poder.
O mesmo amigo me diz que "o mundo sempre foi assim, e nunca será
diferente." Será mesmo? Sonhar com um mundo mais justo,
é só utopia? Aceitar isto como fato consumado é
de um conformismo que nega o direito e a essência humana de
buscar novos caminhos. Ou como afirmou o grande Oscar Wilde: "Aos
olhos de quem leu a História, a desobediência é
a virtude original do homem. A desobediência permitiu o progresso
a desobediência é a rebelião."
Mas, voltando ao tema principal, o que impingem agora a nossa gente,
pela Globo e pelo SBT, são duas versões pioradas daquilo
a que costumamos classificar popularmente como sendo a "Casa
da Mãe Joana".
Quanto ao novo projeto de "reality show", da TV americana,
certamente será uma espécie de "Big Nuclear Brother",
ou uma co-produção de hollywood em parceria com os homens
e as idéias dos atuais governantes dos EUA, cuja política
externa atual parece se resumir em promover conflitos.
Afinal já gastaram dezenas de bilhões de dólares,
mataram muitos afegãos e tiveram soldados mortos, mas nem sequer
desconfiam onde se encontra o seu "inimigo nº 1", ou
o Sr. Bin Laden. Será que este novo "investimento",
via TV, visa a algum lucro ou apenas os votos de que precisa o governo
nas próximas eleições americanas?!
Francisco Simões. (Março/2002)