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Associação
Artística e Literária
A Palavra do Século XXI
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Contos presentes na Coletânea Estalidos - ALPAS XXI

Balança Quebrada
José Pereira de Barros - Petrolina - PE
Bocejo. Um bom espreguiçar. Mais um dia recomeça. Perto
do despertador: balas de menta.
Lavar o rosto. Escovar dentes e cabelos. Banho. Quente. Frio. Quente.
Problemas no chuveiro. Toalhas ásperas. Perfume. Bala de menta.
Cueca, meias e camiseta branca.
Biscoitos. Calça, sapatos e camisa azul-escura. No bolso: amendoim.
Seis degraus: sala. Amendoim. Uma porta: cozinha. Desânimo: café
com adoçante, pão integral, duas bolachas água
e sal, meia fatia de melão. Atrasado? Ainda tenho cinco minutos.
Mais dez e está na sala: amendoim. Chaves. Beijos. Esqueceu o
envelope azul. Amendoim. Óculos escuros. Telefone. Mais doze
minutos. Balas de menta. Atrasado! Três passos largos: carro prata.
Dobra a esquina. Porta luvas: batata fita. Buzina. Outra esquina. Sinal
vermelho. Batata frita. Sinal verde. Fita engolida. Rádio ligado.
Batata frita. Sinal amarelo: não pára.
Cachorro! Banca de jornal: palavras cruzadas, playboy e jornal da manhã.
Troco de balas.
Lixo pela janela. Só mais uma esquina. Garota bonita. Buzina.
Estacionamento. Pára.
Corre. Balas de mel. Escritório. Bom dia. Nenhum recado, senhor.
Água. Cigarro. Balas de mel. A reunião já começou?
O trânsito estava um inferno.., minha mulher está com enxaqueca...
o guarda implicou com minha cara... Não convence. A reunião
prossegue. Como sempre. Pior é não dizer nada.
Ufa! Calorzão, hein? Aqui os resultados da pesquisa: envelope
azul. Refrigerante só light, por favor.
Gráficos. Discussão. Telefone para o senhor. Cigarro.
Cafezinho. Programa de redução de custos. Celular: é
o meu... Lista de demissões. Gente nova custa menos. Alguém
viu a minha caneta? Propostas divergentes. Cigarro. Cafezinho. E o intervalo?
Duas horas e nenhuma conclusão.
Tráfego lento. Restaurante: arroz branco, salada crua e suco
de limão. Mastiga uma folha de alface. Pensa numa lasanha. Jornal.
Cafezinho. Cigarro? Loja de conveniências.
Máquina de refrigerantes. Estacionamento _rápido cochilo.
Celular. Esqueceu o cinto.
Chiclete de hortelã. Multa. Caixa eletrônico. Engarrafamento.
Cigarro. Palavras cruzadas.
Sorvete. Celular. Passar na farmácia: enxaqueca. Impaciência.
Buzina.
Programação (00) _decisões (00) _resultados (00).
O café frio. Amanhã: a continuação de nada.
Amendoim. Tráfego mais lento.
Amendoim. Dobra a esquina. Padaria: leite desnatado, biscoito recheado
e torradas. Jantar de ontem: comida japonesa. Sorri: "o camarada
não sabe o que pediu, paga caro e ainda sai com fome". _
Assim dizia seu pai.
Casa. Buzina. Chaves. Beijos. Banho. Quente. Frio. Pijama. Um bom espreguiçar:
a porcaria dessa balança que você comprou, só pode
estar quebrada. Por quê? O médico passou aquele regime
de campo de concentração e continuo com o mesmo peso ...Bocejo.
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Febre de Amor
José Pereira de Barros - Petrolina - PE
Depois de longos quinze anos de noivado, Diógenes criou coragem
e marcou a data do casamento. As duas famílias deram um enorme
suspiro de alivio. Principalmente as solteironas. Há quase seis
anos surgira uma profecia na cidade: se Genilda se casar, não
faltará casamento pras moças de Florência. No início
era motivo de piada, mas não fazia mal nenhum acreditar nessa
história. Tão firme se tornou essa crença que os
enxovais abandonados começaram a ser renovados.
_Tudo que era para ser providenciado, já foi feito: a nossa casa
ficou do jeito que voce queria, Genilda! Da varanda a gente vê
toda a cidade; do quarto, o nascente e as roças do seu pai; da
janela da cozinha, o poente e a Lagoinha; o armazém já
tem clientela certa, até de fora; na tua escolinha o que não
falta é aluno e professor interessado. Podemos casar!
Não era a primeira vez que ele dizia "podemos casar".
Mas, certamente era a primeira vez que marcava a data para realizar
um sonho que já fizia parte da sua vida. Seria estranho daqui
para frente. Isso ela pensava com muita imprecisão, não
saberia como externar esse sentimento. E sorria. Aliás, era apenas
o que fazia quando ouvia essas coisas.
Genilda era sempre assim, calma. Até em sala de aula. Os alunos
mais impossíveis se rendiam diante de tamanha mansidão.
É verdade que muitos a chamavam de mosca morta. Ela sabia disso.
Dizia que era coisa da idade. Só se alterou uma vez: tamanho
assombro causou na cidade. As testemunhas do evento ficaram tão
assustadas e superlativaram as reações da professorinha
de tal maneira, que bastava ela erguer levemente a sobrancelha direita
que o temor petrificava a mais rebelde das criaturas. Divertia-se com
essa história, mas não se esforçava o mínimo
para desfazer o mal entendido.
_Você precisa renovar o seu enxoval também, minha filha!
Preste atenção, a comadre Marlene trouxe uma revista da
capital que tá assim de novidades. Já combinei com ela,
vamos amanhã à tarde fazer as encomenda. Eu vou aproveitar
para fazer uns bordados naqueles panos de prato que ganhei do seu pai.
Não vou precisar deles e você fica com eles.
Dona Evilásia tratava os filhos e sobrinhos como se ainda fossem
crianças. Havia percebido um leve rubor na filha _e apenas para
certificar o que seu instinto de mãe já previra _ajeitou
os óculos e tocou em seu rosto. Disse que era febre emocional.
E começou a citar todos os tipos de chás e suas especialidades.
Ia preparar um chá de flor de laranjeira bem forte. O engraçado,
comentava o marido, com essa memória toda, nunca acertava os
nomes dos filhos quando precisava chamá-los.
_Nem precisa se preocupar, tia. Deve ser febre de amor. Vai dizer que
a senhora também não ficou assim antes do casamento? É
um fogo que parece queimar a gente por dentro!
Indignada com o atrevimento da sobrinha, saiu pisando duro em direção
à cozinha. Ia resmungando, dizendo que no seu tempo isso não
acontecia. Dobrando o jornal, o seu esposo disse marotamente: "Entre
tantas especialidades, quem sabe você conheça um chá
que sirva para curar atrevimento de gente nova? Ou rabugice de gente
velha? ". Sem se voltar para os três que riam às suas
custas, ela revidou: Deus não deu asa à cobra por acaso,
Bento. Essas meninas não respeitam mais ninguém por que
você dá ousadia!
Acontece que não houve flor de laranjeira que desse resultado.
Resignada como era, Genilda parecia não se perturbar com a febre
e se envolveu nos preparativos do casamento. Até Diógenes
se acostumou com a quentura dela. E, atrevidamente, contou aos seus
colegas de copo que se ela estava ardendo agora, depois iria ferver!
Gargalhadas sonoras acompanhavam cada nova rodada de cerveja. Tudo por
conta do noivo atrevido que jurava pela pureza da sua noiva. Mérito
apenas dela.
Dona Marlene estava repleta de encomendas: mas as melhores coisas eram
para sua afilhada. "Afinal _pensava _se o que a finada Santinha
profetizou for verdade, até a minha filha Francisca Eugênia
vai sair desse infortúnio". E não era que podia ser
mesmo verdade? Pois até essa foi vista perto da Lagoinha: ponto
de encontro dos namorados da cidade. E assim se passaram os dias de
expectativa para todos. E se a febre de Genilda não cedia, também
não aumentava. Assim como o seu amor por Diógenes.
Até que ele fez algo imprevisível quando faltavam quatro
dias para o casamento. Comprou uma quantidade surpreendente de flores,
entregues junto com o vestido de noiva. A casa de Genilda ficou tão
perfumada que as pessoas diriam em suas lembranças: quem passasse
pela Rua do Arvoredo ainda sentia o perfume de rosas, quase um ano depois
do acontecido. Assim era em Florência _tudo que causasse assombro,
era superlativado. A partir desse dia a febre começou a aumentar
vertiginosamente.
_O seu vestido parece uma luva, minha filha, não precisa de nenhum
ajuste. E que delicadeza da parte do Geninho, hein? Nem no meu tempo
eu vi uma coisa dessas! Mas estou perdendo a minha paciência com
a sua falta de cuidado, essa febre está acabando com você!
Desse jeito, em vez de um casamento teremos um velório!
Na véspera do grande evento, a lua estava linda e a Lagoinha
parecia um espelho, mas a situação exigia mais prudência
que poesia. Estava exausta. Delicadamente pediu a Diógenes para
voltarem mais cedo do passeio. Ele ficou um pouco desapontado, mas não
quis contrariá-la. O jeito era aguardar a noite seguinte. E quando
se voltou na esquina _ela só entrava na casa após um último
adeus _percebeu uma tênue luminosidade em volta de Genilda. Ficava
embaraçado com essa bobagem de acenar de tão longe, mas
a imagem luminosa de sua amada na penumbra da varanda enterneceu o seu
coração. Seria a mais doce recordação que
guardaria para sempre.
Apesar de sentir um entorpecimento no corpo _e uma nítida impressão
de que o sangue estava a ponto de ferver _organizou metodicamente sobre
a penteadeira tudo o que iria precisar no dia seguinte. Banhou-se em
silêncio. Se percebesse que a água evaporava em contato
com o seu corpo, julgaria ser uma alucinação. Apesar do
calor excessivo, não deixou de se cobrir. Mas estava completamente
desnuda. Desmaiou: a febre atingira o seu ápice. Na manhã
do casamento encontraram apenas um monte de cinzas sobre a cama.
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