ALPAS XXIl - CRÔNICAS
Endereço:
Caixa Postal 123
CEP: 98.050.330

Cruz Alta/RS-Brasil
Telefone:
0xx55-3324 8145
E-mail:
alpasxxi@laguna.com.br

Associação Artística e Literária
A Palavra do Século XXI
Cruz Alta - Rio Grande do Sul - Brasil

 

Crônicas

Maria Esther Tourinho

Marissom Ricardo Roso

Prato do dia

 

Arnaldo é um trabalhador comum que, como muita gente, não tem tempo para ir em casa almoçar; costuma freqüentar essas pequenas lanchonetes/restaurantes, onde se servem refeições comerciais e pratos do dia. Geralmente esses lugares têm um esquema mais ou menos fixo : comercial com bife, picadinho ou frango, ou o prato do dia, o qual segue mais ou menos o calendário abaixo :

PRATO DO DIA

2a. feira - Virado à Paulista

3a. feira - Bife à rolê com purê e arroz

4a. feira - Feijoada

5a. feira - Macarrão com frango

6a. feira - Filé de peixe com maionese

Sábado - Feijoada

Pois bem. É segunda-feira e Arnaldo já trabalhou metade do dia; quando vai ao restaurante, o preço do virado é muito pesado para o seu orçamento; ele vira e revira os bolsos e o dinheiro não dá para pagar o virado, nem o paulista nem qualquer outro que houvesse. O estômago vira e revira de fome, a cabeça, vira e revira de insatisfação.

Na terça-feira, o bife à role é ele mesmo, Arnaldo, enrolado e afogado nas contas a pagar, a própria batata, cozida no vapor do ônibus superlotado que toma para trabalhar, transtornada e transformada em um purê de dívidas.

Na quarta, nem pensar em comer feijoada, o prato mais caro da semana. Arnaldo já sabe que a feijoada é ele mesmo, uma mistura de "carne de segunda", que bem poderia subir um pouco na vida, como no caso do prato de origem humilde, que faz a festa dos brasileiros, mesmo nas "casas grandes" de hoje. Mas cadê a oportunidade?

Na quinta-feira, o macarrão com frango chama a atenção dos italianos por descendência ou por espírito, mas faltam-lhe as vitaminas necessárias a uma refeição equilibrada; além disso, o dinheiro é novamente insuficiente e ele se sente o próprio frango, frito na frigideira ou ensopado na panela dos problemas a resolver e do aluguel atrasado da casinha de fundos na periferia.

Na sexta, para completar, novamente não dispõe do dinheiro para comer o peixe; sente-se, então, um peixe fora d’água, quando compara o seu salário com o custo de vida e percebe que não pode e não deve comer nada, caso contrário o dinheiro não vai dar para a condução

de volta para casa. Além disso, pra quê comer maionese, se ele mesmo é o próprio legume picado?

No fim de semana, ele ainda vai fazer um bico em bairro mais central, a fim de ganhar uns trocados a mais. É longe de casa e ele novamente vai à lanchonete/restaurante; a essa altura, confunde-se e lê "lanchorante". Porque, além de ser semi-analfabeto, traz a cabeça pesada de cansaço e dificuldades.

Enfim, é sábado e de novo, o prato do dia é feijoada, porém não há dinheiro p’ra todo dia comer o prato do dia e ele então atravessa a rua e entra em uma pastelaria.

Melhor pedir um pastel e, se der, um caldo de cana, ou engolir o pastel a seco e seguir em frente, que atrás vem muito mais gente.

Volta ao início

 

A paz que queremos

No antigo Oriente, havia um Rei de temperamento mercurial, que possuía um grande número de cães selvagens, verdadeiros demônios, com a força de um puma e mandíbulas tão fortes capazes de arrancar a cabeça de um camelo com uma só mordida. Estas feras eram maltratadas e só se alimentavam ocasionalmente de suas vítimas. Cada vez que um pobre mortal provocava a ira do Rei, era devorado pelas feras, sem a menor compaixão.

Mas, entre os cortesãos do Rei havia um jovem de sabedoria considerável e mestre na arte da diplomacia. Atento à existência destas bestas satânicas e ao propósito ao qual elas serviam, passou a temer por sua segurança. Então, o jovem bolou um plano. Sempre que surgia uma oportunidade, ele passava pelo jaula dos cães e conversava com os tratadores. Mais tarde, começou a passar pela cozinha Real e trazer alimentos para as bestas e gradualmente foi ganhando a confiança dos cães.

Certa feita, por uma simples bobagem, o Rei se zangou com o jovem e mandou que ele fosse jogado às feras para ser devorado. Os guardas arrastaram-no até o canil, fecharam o portão e ficaram esperando o ataque das bestas malignas. Os cães reconheceram o homem que lhes trazia presentes, correram em sua direção e começaram a lamber suas mãos. Sentaram ao redor dele, prontos para protegê-lo do perigo. Os guardas do Rei, surpresos, pois esperavam um banho de sangue, testemunharam uma exibição comovedora de afeto entre homem e fera.

Entretanto, a raiva do Rei havia passado e ele começou a sentir remorsos. Desesperado, chorou; 'Por que eu ordenei que aquele jovem inocente fosse lançado aos cães? Por que eu agi estupidamente? Quando os guardas temerosos, contaram ao Rei o ocorrido, o Rei correu até o canil. Vendo o milagre com os próprios olhos, agradeceu aos céus. Os guardas libertaram o jovem, e o Rei, soluçando violentamente, o abraçou e implorou seu perdão. Vários dias depois, não acreditando em milagres, o Rei solicitou a presença do jovem, para uma conversa reservada. Queria saber qual era o segredo dele.

'É verdade que seus cães ficaram meus amigos e pouparam minha vida por causa de algumas carcaças de carne. Eu lhes demonstrei uma pequena generosidade e eles retribuíram poupando minha vida. Mas e você, Majestade? Porque eu o aborreci por alguns momentos, mandou matar-me! Diga-me então, quem é meu melhor amigo: você ou seus cães do inferno? Quem merece meu respeito: você ou seus demônios caninos?' A fala firme do jovem e sua considerável coragem, não irritaram o Rei. Estava claro que a experiência toda era um teste de Deus para convencê-lo, de que havia uma lição a ser aprendida. O Rei decidiu nunca mais agir inconseqüentemente, nunca mais lançar pessoas aos cães ferozes, e tentaria domesticar a besta que habitava sua própria alma.

O significado desta história é que até a mais selvagem das bestas-feras, quando é tratada com respeito, carinho, compaixão e amor, retribuirá com o que recebe. Neste momento em que a sociedade clama pelo fim da violência, temos que analisar a que violência nos referimos: À violência física que sofremos ou à violência que causamos com nossa omissão neste processo de exclusão social? Como exigir um comportamento social adequado daqueles que são obrigados a 'existir' em condições sub humanas? Este empobrecimento generalizado das sociedades, é o resultado mais nefasto deste processo irreversível da globalização. O maior condutor da violência é essa exclusão social surda, cega e burra, que todos fingem não existir.

Ainda é necessário fazer muito pela paz, mas esta campanha "Basta, eu quero paz!" é um bom começo para despertar as consciências em direção ao que chamo de 'fraternidade do homem', pois a pessoa é o ser mais importante que existe no universo, é o ser de maior valor dentre tudo aquilo que nos cerca. O homem é o protagonista da cultura e da história.


O Fim do Ricardão

Dizem que há mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia consegue imaginar. Eu acrescentaria que apesar disto, tudo o que nossa mente consegue imaginar, um dia se transformará na mais pura realidade. Lembram dos gibis futuristas do Flash Gordon trocados na porta das matinês? Bons tempos aqueles.

Woody Allen já tinha imaginado em um de seus filmes (Sleeper), uma máquina denominada 'orgasmatron' que produzia orgasmos a pedido, simplesmente com o aperto de um botão. Pois não é que agora um médico cirurgião anestesista chamado Stuart Meloy, quase que por acidente, acaba de criar esta máquina fantástica. Um implante eletrônico com o objetivo de produzir orgasmos instantâneos nas mulheres, sem necessidade do ato sexual, acaba de ser patenteado pelo médico norte-americano, segundo a revista britânica "New Scientist".

A idéia de Meloy surgiu durante uma operação, quando estava implantando eletrodos na medula de uma paciente para aliviar as dores. A paciente, que estava consciente para acompanhar a operação, começou a gritar de repente. Assustado, o médico perguntou o que acontecia. A mulher respondeu com outra pergunta: você poderia ensinar meu marido a fazer isto? Segundo o cirurgião, o estimulador de orgasmos, que funciona também para mulheres que sofrem de frigidez, é formado por cabos de estímulo conectados por um gerador menor que um pacote de cigarro. O cirurgião acredita que a intervenção cirúrgica necessária para implantar o estimulador de orgasmos não é um obstáculo em si. É barbada!

Desde que comecei a engatinhar na arte de tentar compreender o mundo, sempre achei que Deus, ou a Natureza, como queiram, haviam sido terrivelmente injustos com as mulheres. E quanto mais eu me aprofundava nesse questionamento, maior se tornava minha certeza de que um dia a vingança das mulheres seria terrível. Até hoje ainda se ouve por aí barbaridades do tipo 'as mulheres nasceram para servir a Deus e aos homens', mas, com exceção de alguns países do Oriente, onde hoje as mulheres sofrem as maiores atrocidades, no mundo ocidental elas viraram o jogo e aos poucos foram se libertando da mão opressora do homem e, agora são elas que dão as cartas com muita competência. Nunca imaginei que a concretização de minha profecia, o golpe final nesta guerra dos sexos, viria justamente da mão de um homem em favor das mulheres. O orgasmo eletrônico é o rompimento do último grilhão.

Eu que sempre acreditei ser um progressista devoto, um cara sem preconceitos, fervoroso defensor das liberdades, que acreditava no flower power, no amor livre, que até já tinha me acostumado com a clausura odiosa da camisinha, que achava que o Ricardão era quase um personagem de utilidade pública e tal, pasmo diante desta situação, vejo surgir em mim o mais ortodoxo conservador. Finalmente fomos descartados. O lado positivo deste invento é que num futuro próximo, quando se tornar popular e barato, ele poderá vir a ser o maior aliado no controle de natalidade. O lado negativo é que daqui em diante, sexo só se for para gerar bebês.

Só resta àqueles homens que ainda gostam de queimar calorias de uma forma mais 'criativa e agradável' do que jogar futebol ou puxar ferro em academias, sair às ruas e queimar cuecas em praça pública num inusitado manifesto libertário.

  Volta ao início

Todas as Crônicas estão presentes na Coletânea Estalidos

ASSOCIE-SE À ALPAS