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Maria
Esther Tourinho
Marissom
Ricardo Roso
Prato
do dia
Arnaldo
é um trabalhador comum que, como muita gente, não tem tempo
para ir em casa almoçar; costuma freqüentar essas pequenas
lanchonetes/restaurantes, onde se servem refeições comerciais
e pratos do dia. Geralmente esses lugares têm um esquema
mais ou menos fixo : comercial com bife, picadinho ou frango,
ou o prato do dia, o qual segue mais ou menos o calendário
abaixo :
PRATO
DO DIA
2a.
feira - Virado à Paulista
3a.
feira - Bife à rolê com purê e arroz
4a.
feira - Feijoada
5a.
feira - Macarrão com frango
6a.
feira - Filé de peixe com maionese
Sábado
- Feijoada
Pois
bem. É segunda-feira e Arnaldo já trabalhou metade do dia;
quando vai ao restaurante, o preço do virado é muito pesado
para o seu orçamento; ele vira e revira os bolsos e o dinheiro
não dá para pagar o virado, nem o paulista nem qualquer
outro que houvesse. O estômago vira e revira de fome, a
cabeça, vira e revira de insatisfação.
Na
terça-feira, o bife à role é ele mesmo, Arnaldo, enrolado
e afogado nas contas a pagar, a própria batata, cozida no
vapor do ônibus superlotado que toma para trabalhar, transtornada
e transformada em um purê de dívidas.
Na
quarta, nem pensar em comer feijoada, o prato mais caro
da semana. Arnaldo já sabe que a feijoada é ele mesmo, uma
mistura de "carne de segunda", que bem poderia subir um
pouco na vida, como no caso do prato de origem humilde,
que faz a festa dos brasileiros, mesmo nas "casas grandes"
de hoje. Mas cadê a oportunidade?
Na
quinta-feira, o macarrão com frango chama a atenção dos
italianos por descendência ou por espírito, mas faltam-lhe
as vitaminas necessárias a uma refeição equilibrada; além
disso, o dinheiro é novamente insuficiente e ele se sente
o próprio frango, frito na frigideira ou ensopado na panela
dos problemas a resolver e do aluguel atrasado da casinha
de fundos na periferia.
Na
sexta, para completar, novamente não dispõe do dinheiro
para comer o peixe; sente-se, então, um peixe fora d’água,
quando compara o seu salário com o custo de vida e percebe
que não pode e não deve comer nada, caso contrário o dinheiro
não vai dar para a condução
de
volta para casa. Além disso, pra quê comer maionese, se
ele mesmo é o próprio legume picado?
No
fim de semana, ele ainda vai fazer um bico em bairro mais
central, a fim de ganhar uns trocados a mais. É longe de
casa e ele novamente vai à lanchonete/restaurante; a essa
altura, confunde-se e lê "lanchorante". Porque, além de
ser semi-analfabeto, traz a cabeça pesada de cansaço e dificuldades.
Enfim,
é sábado e de novo, o prato do dia é feijoada, porém não
há dinheiro p’ra todo dia comer o prato do dia e ele então
atravessa a rua e entra em uma pastelaria.
Melhor
pedir um pastel e, se der, um caldo de cana, ou engolir
o pastel a seco e seguir em frente, que atrás vem muito
mais gente.
Volta
ao início
A
paz que queremos
No
antigo Oriente, havia um Rei de temperamento mercurial,
que possuía um grande número de cães selvagens, verdadeiros
demônios, com a força de um puma e mandíbulas tão fortes
capazes de arrancar a cabeça de um camelo com uma só mordida.
Estas feras eram maltratadas e só se alimentavam ocasionalmente
de suas vítimas. Cada vez que um pobre mortal provocava
a ira do Rei, era devorado pelas feras, sem a menor compaixão.
Mas,
entre os cortesãos do Rei havia um jovem de sabedoria considerável
e mestre na arte da diplomacia. Atento à existência destas
bestas satânicas e ao propósito ao qual elas serviam, passou
a temer por sua segurança. Então, o jovem bolou um plano.
Sempre que surgia uma oportunidade, ele passava pelo jaula
dos cães e conversava com os tratadores. Mais tarde, começou
a passar pela cozinha Real e trazer alimentos para as bestas
e gradualmente foi ganhando a confiança dos cães.
Certa
feita, por uma simples bobagem, o Rei se zangou com o jovem
e mandou que ele fosse jogado às feras para ser devorado.
Os guardas arrastaram-no até o canil, fecharam o portão
e ficaram esperando o ataque das bestas malignas. Os cães
reconheceram o homem que lhes trazia presentes, correram
em sua direção e começaram a lamber suas mãos. Sentaram
ao redor dele, prontos para protegê-lo do perigo. Os guardas
do Rei, surpresos, pois esperavam um banho de sangue, testemunharam
uma exibição comovedora de afeto entre homem e fera.
Entretanto,
a raiva do Rei havia passado e ele começou a sentir remorsos.
Desesperado, chorou; 'Por que eu ordenei que aquele jovem
inocente fosse lançado aos cães? Por que eu agi estupidamente?
Quando os guardas temerosos, contaram ao Rei o ocorrido,
o Rei correu até o canil. Vendo o milagre com os próprios
olhos, agradeceu aos céus. Os guardas libertaram o jovem,
e o Rei, soluçando violentamente, o abraçou e implorou seu
perdão. Vários dias depois, não acreditando em milagres,
o Rei solicitou a presença do jovem, para uma conversa reservada.
Queria saber qual era o segredo dele.
'É
verdade que seus cães ficaram meus amigos e pouparam minha
vida por causa de algumas carcaças de carne. Eu lhes demonstrei
uma pequena generosidade e eles retribuíram poupando minha
vida. Mas e você, Majestade? Porque eu o aborreci por alguns
momentos, mandou matar-me! Diga-me então, quem é meu melhor
amigo: você ou seus cães do inferno? Quem merece meu respeito:
você ou seus demônios caninos?' A fala firme do jovem e
sua considerável coragem, não irritaram o Rei. Estava claro
que a experiência toda era um teste de Deus para convencê-lo,
de que havia uma lição a ser aprendida. O Rei decidiu nunca
mais agir inconseqüentemente, nunca mais lançar pessoas
aos cães ferozes, e tentaria domesticar a besta que habitava
sua própria alma.
O
significado desta história é que até a mais selvagem das
bestas-feras, quando é tratada com respeito, carinho, compaixão
e amor, retribuirá com o que recebe. Neste momento em que
a sociedade clama pelo fim da violência, temos que analisar
a que violência nos referimos: À violência física que sofremos
ou à violência que causamos com nossa omissão neste processo
de exclusão social? Como exigir um comportamento social
adequado daqueles que são obrigados a 'existir' em condições
sub humanas? Este empobrecimento generalizado das sociedades,
é o resultado mais nefasto deste processo irreversível da
globalização. O maior condutor da violência é essa exclusão
social surda, cega e burra, que todos fingem não existir.
Ainda
é necessário fazer muito pela paz, mas esta campanha "Basta,
eu quero paz!" é um bom começo para despertar as consciências
em direção ao que chamo de 'fraternidade do homem', pois
a pessoa é o ser mais importante que existe no universo,
é o ser de maior valor dentre tudo aquilo que nos cerca.
O homem é o protagonista da cultura e da história.
O
Fim do Ricardão
Dizem
que há mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã
filosofia consegue imaginar. Eu acrescentaria que apesar
disto, tudo o que nossa mente consegue imaginar, um dia
se transformará na mais pura realidade. Lembram dos gibis
futuristas do Flash Gordon trocados na porta das matinês?
Bons tempos aqueles.
Woody
Allen já tinha imaginado em um de seus filmes (Sleeper),
uma máquina denominada 'orgasmatron' que produzia orgasmos
a pedido, simplesmente com o aperto de um botão. Pois não
é que agora um médico cirurgião anestesista chamado Stuart
Meloy, quase que por acidente, acaba de criar esta máquina
fantástica. Um implante eletrônico com o objetivo de produzir
orgasmos instantâneos nas mulheres, sem necessidade do ato
sexual, acaba de ser patenteado pelo médico norte-americano,
segundo a revista britânica "New Scientist".
A
idéia de Meloy surgiu durante uma operação, quando estava
implantando eletrodos na medula de uma paciente para aliviar
as dores. A paciente, que estava consciente para acompanhar
a operação, começou a gritar de repente. Assustado, o médico
perguntou o que acontecia. A mulher respondeu com outra
pergunta: você poderia ensinar meu marido a fazer isto?
Segundo o cirurgião, o estimulador de orgasmos, que funciona
também para mulheres que sofrem de frigidez, é formado por
cabos de estímulo conectados por um gerador menor que um
pacote de cigarro. O cirurgião acredita que a intervenção
cirúrgica necessária para implantar o estimulador de orgasmos
não é um obstáculo em si. É barbada!
Desde
que comecei a engatinhar na arte de tentar compreender o
mundo, sempre achei que Deus, ou a Natureza, como queiram,
haviam sido terrivelmente injustos com as mulheres. E quanto
mais eu me aprofundava nesse questionamento, maior se tornava
minha certeza de que um dia a vingança das mulheres seria
terrível. Até hoje ainda se ouve por aí barbaridades do
tipo 'as mulheres nasceram para servir a Deus e aos homens',
mas, com exceção de alguns países do Oriente, onde hoje
as mulheres sofrem as maiores atrocidades, no mundo ocidental
elas viraram o jogo e aos poucos foram se libertando da
mão opressora do homem e, agora são elas que dão as cartas
com muita competência. Nunca imaginei que a concretização
de minha profecia, o golpe final nesta guerra dos sexos,
viria justamente da mão de um homem em favor das mulheres.
O orgasmo eletrônico é o rompimento do último grilhão.
Eu
que sempre acreditei ser um progressista devoto, um cara
sem preconceitos, fervoroso defensor das liberdades, que
acreditava no flower power, no amor livre, que até já tinha
me acostumado com a clausura odiosa da camisinha, que achava
que o Ricardão era quase um personagem de utilidade pública
e tal, pasmo diante desta situação, vejo surgir em mim o
mais ortodoxo conservador. Finalmente fomos descartados.
O lado positivo deste invento é que num futuro próximo,
quando se tornar popular e barato, ele poderá vir a ser
o maior aliado no controle de natalidade. O lado negativo
é que daqui em diante, sexo só se for para gerar bebês.
Só
resta àqueles homens que ainda gostam de queimar calorias
de uma forma mais 'criativa e agradável' do que jogar futebol
ou puxar ferro em academias, sair às ruas e queimar cuecas
em praça pública num inusitado manifesto libertário.
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Todas as Crônicas estão presentes
na Coletânea Estalidos
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