Ninah Faraó entrevista Esther Torinho

Nina Faraó, jornalista, diretora de Teatro em Buenos Aires entrevista Esther Torinho,

professora e escritora de São Paulo

Nina Faraó - Como é escrever em um país onde a cultura não é priorizada e os livros são inacessíveis a maioria da população, e por vezes, o autor não tem público para temática que desenvolve?

Esther Torinho - Difícil não é escrever, é ter o teu trabalho lido, comentado, discutido, goste-se ou não. Parece que digo o óbvio, mas enfatizo a necessidade premente de se começar a pensar em viabilizar novas obras, novos talentos. O Governo precisa cumprir seu papel e, no entanto, vimos com tristeza que no Ano da Literatura, o Ministério da Cultura instituiu um concurso para premiar com cinqüenta mil reais uma única pessoa, no gênero Ensaio. A quem aproveita esse tipo de coisa? Nada tenho contra qualquer autor ou gênero, mas não seria melhor dividirem esse prêmio por umas dez pessoas, nos diferentes gêneros?

Nina Faraó - Qual a tua opinião sobre o relacionamento entre autor e leitor via Internet?

Esther Torinho - Uma grande oportunidade de encontro, apesar da distãncia. A Internet aproxima as pessoas e para ambos os lados, essa é uma oportunidade única. Para o autor, uma forma sem precedentes de atingir um grande público em curto espaço de tempo e para o leitor, uma chance de entrar em contato com valores que estão aí mostrando seu trabalho, ou seja, uma ampliação de contato salutar para todos e para a Literatura.

Nina Faraó -A integração dos países do Mercosul favorece a divulgação literária e cultural? Por quê?

Esther Torinho - Toda integração é sempre positiva e o Toda integração é sempre positiva e o Mercosul sem dúvida é um forte elo de integração, não apenas no campo econômico, mas no sentido global.

Nina Faraó -Quais os personagens da literatura que mais te marcaram? Indique a obra e o autor onde encontraste esse personagem.

Esther Torinho - Principalmente Mary Hester, de A Letra Escarlate, do americano Nathaniel Hawthorne e Teresa Batista, de Teresa Batista Cansada de Guerra, de Jorge Amado, são duas personagens inesquecíveis.

Nina Faraó -Se pudesses escolher um autor(a) para conversar em um tranqüilo bar do Bairro da Recoleta em Buenos Aires, qual seria?

Esther Torinho - Se fosse possível, conversaria com Cecília Meireles. Quanto aos autores vivos, que fazem a boa Literatura de hoje, eu escolheria pelo menos: os poetas di Cavalcanti e Márcia Maia. Seria um encontro e tanto.


Nina Faraó - Se tivesses o poder de transformar o mundo, quais seriam tuas primeiras atitudes? Esther Torinho - Ah, se eu tivesse esse poder...A guerra em primeiro lugar, mas para isso precisaria antes adoçar o fel dos corações humanos (dos governantes, principalmente). Desse açucar todo não disponho e, assim, bebo esse fel em amarga taça, compartilhada apenas com aqueles que choram comigo as maldades que persistem. Acabaria com a doença e a fome.

Nina Faraó -O que gostarias que o público soubesse sobre ti e sobre tua obra?

Esther Torinho - Olha, Nina, sou uma pessoa simples, tímida, apesar de falante. Sobre a minha pessoa, sou sincera, amiga e leal, e sobre minha obra é que escrevo por uma necessidade irrevogável e inadiável e meu principal objetivo é levar um pouco de emoção ás pessoas. Espero que gostem.

Nina Faraó -Qual a tua opinião sobre o trabalho da ALPAS XXI na divulgação de novos autores?

Esther Torinho - A ALPAS XXI é uma entidade séria, fazendo um trabalho competente em prol da Arte, da Literatura, dos novos artistas/autores. Isso terá um retorno, essa semente vai vingar bons frutos dentro de pouco tempo.

Nina Faraó -Se pudesses traçar um plano de desenvolvimento econômico-político-social para o Brasil, quais seriam a s tuas principais metas?

Esther Torinho - A diversidade e a complexidade dos nossos problemas dificulta uma análise e um plano em tão poucas palavras, porém alguns pontos são cruciais: melhor distribuição de renda, melhor aproveitamento do dinheiro público, menos impostos - só o Governo não quer ver as distorções que existem aí - além do mais, com menos impostos diretos ao contribuinte, esse mesmo contribuinte poderia consumir mais e isso inevitavelmente reverteria em novos impostos, vindos agora de outras fontes. Também

Nina Faraó -Como vês a literatura no Brasil atual?

Esther Torinho - A Literatura Brasileira é, como sempre o foi e agora mais do que nunca demonstra ser, muita rica, plena de possibilidades e de talentos. No entanto, falta incentivo ao autor: se por um lado as Editoras não desejam correr riscos investindo em novos autores, por outro lado, também falta incentivo por parte do Governo. E quem sai perdendo é o público. E se ninguém investir, o público vai estar eternamente lendo os mesmos maravilhosos e eternos autores. No entanto, atualmente percebe-se claramente que o público anda ávida por novos e bons autores.

Respostas breves:

Nina Faraó - Preferes escrever prosa ou poesia? Ambos; embora me identifique muito com a poesia, também gosto de escrever prosa - contos e, principalmente, crõnicas.

Nina Faraó - Quais os teus autores prediletos?

Ser breve, nesta? Bem, em poesia, gosto principalmente de Cecília Meireles - (ah, Cecília, como sempre me emocionas, minha poeta de hoje, de sempre!), de Mário Quintana, Pablo Neruda, F. Pessoa, Emily Dickinson e outros tantos. Em prosa, Rubem Braga, meu cronista preferido; Luís Fernando Veríssimo,

Nina Faraó - Quais são as temáticas que mais desenvolves em tua obra?

Esther Torinho - Temáticas variadas mas sintetizando: a vida em seus variados aspectos: os sentimentos humanos em geral - os conflitos que movem as pessoas, o amor em todas as suas facetas, a natureza, a vida e a morte.

Nina Faraó - Qual teu lazer predileto?

Esther Torinho - São principalmente três: ler - sou leitora compulsiva, leio muitíssimo, desde muito cedo; ouvir música e viajar... Essas nem posso chamar de lazer, são paixões.

Nina Faraó - Qual o teu objetivo mais urgente?

Esther Torinho - Viver, viver, viver. Com alegria de viver!

Nina Faraó - Qual o animal com o qual mais te identificas?

Esther Torinho - Pássaros - estão sempre presentes em minhas obras. Meu primeiro livro: Pássaro Migrante.

Nina Faraó - Quem personifica a inspiração da poeticidade em tuas obras?

Esther Torinho - A vida, o amor, a natureza. Em quase tudo há poesia, basta que se tenha olhos para ver. Quando não há poesia, é justamente quando atos humanos inconseqüentes esfacelam a beleza da vida.


Por gentileza deixe:

Uma frase: Feliz o pássaro que bate asas em busca de seus sonhos.

Uma crítica: Aos que promovem a guerra, seja qual for o pretenso motivo. Aos que semeiam a destruição do mundo, do meio ambiente, aos que trazem a fome , a miséria, aos que lutam para destruição

Um elogio: Aos que se desdobram pela Divulgação da Literatura e da Arte; dentre estes destaco: Rozelia S. Rasia, Joyce Cavalcanti, Leila Miccolis e Roberto Pires.

Um olhar: Um olhar sobre o Oriente Médio, com suas eternas e corriqueiras desavenças tão inúteis quanto trágicas. Quando o ser humano aprenderá, como disse Drummond "a insuspeitada alegria de conviver"?