Pedro Costa entrevistado por Ninah Faraó para a Alpas XXI

 

Nina Faraó entrevista Pedro Costa

ENTREVISTA

1. Como é escrever em um país onde a cultura não é priorizada e os livros são inacessíveis à maioria da população, e por vezes, o autor não tem público para a temática que desenvolve?

R. Fica meio complicado. Cultura se adquire através do tempo com muita leitura, pesquisas e vontade de ir além. A situação econômica que atravessamos, torna as coisas difíceis. Se levarmos em conta que o Brasil desde a descoberta, que é discutível, acidental ou intencional, somamos culturas ou fragmentos de diversos países europeus, na época, mais evoluídos.
Para se ter uma idéia, Portugal (1189 ou 1198), quem nos descobriu, já fazia Literatura. Nós não tivemos Idade Média. Apenas a partir de 1922 iniciamos a nossa Literatura, divulgando ou tornando público a realidade brasileira.
Público sempre há, talvez não o desejado. A preocupação é o momento, mas a maioria não se liga à gravidade dos problemas existentes. Prefere a outras opções que a Literatura. Damos a nossa parcela de colaboração a fim de dar tempo ao tempo, para que haja um amadurecimento.

2. Qual a tua opinião sobre o relacionamento entre autor e leitor via internet?
R. Acredito seja o melhor possível. É uma satisfação bilateral. Serve de estímulo, promovendo direta ou indiretamente um enriquecimento cultural, o qual é subjetivo. Facilita a oportunidade de acesso a informações preciosas consideráveis. A ampliação do saber mais, ficará por conta da Internet. O mundo é dinâmico, necessita, pois, de rapidez. A troca de e-mail estimula o ato natural de escrever. Dá uma grande contribuição. A médio prazo as coisas hão de melhorar.
3. A integração do Mercosul favorece a divulgação literária e cultural? Por quê?
R. Sem dúvidas. Apesar de não dominar o espanhol, tenho lido textos que me enriquecem. O léxico sempre foi o meu amigo inseparável. No mundo nada se faz sem a troca, em todos os sentidos. Precisamos tomar conhecimento com o que se passa na América do Sul a fim de crescermos. A interação modifica vícios, anula preconceitos descabidos, para que possamos nos tornar uma unidade. Através da troca de informações, criamos condições de competitividade, sem rivalidades. Acredito que poderemos ser uma voz presente aos olhos do Velho Continente.
4. Quais os personagens da literatura que mais de marcaram? Indique a obra e o autor onde encontraste esse personagem.
R. Tenho, por hábito, visitar com freqüência vários países graças à maravilha da televisão. Ora estou no Egito, na Grécia, na Argentina, ora na Holanda, Inglaterra, França, tomando conhecimento de culturas diferentes, sem sair de casa, num simples toque do controle remoto. Da mesma forma acontece com os livros. Às vezes nos apegamos a certos personagens dos textos por questões de afinidade ou verossimilhança. Cito, como exemplo, Bentinho e Capitu, personagens de Dom Casmurro, do escritor Machado de Assis, mas por quê? Bentinho pela teimosia e Capitu pelo poder de dissimulação de que era portadora. Isto caracterizou a antevisão de futuro do escritor. Presenciamos em evidência, grandes teimosos e dissimuladores manobrando o mundo. É lamentável!...
5. Se pudesses escolher um autor(a) para conversar em um tranqüilo bar do Bairro da Recoleta em Buenos Aires, quais seriam as tuas principais metas?
R. Só a formulação da pergunta, embora sem conhecê-lo, passei a ser mais um morador da Recoleta. Quem não gosta de tranqüilidade? A Literatura é rica em grandes autores. A imortalidade é uma realidade, sempre temos contato com eles quando nos entregamos à leitura.
Não possuo afinidade com bares, questão de vocação, o que não me impede de abrir uma exceção. Escolheria, no momento, Artur da Távola, dado a versatilidade que possui, esbanja saber, com humildade, nas diversas áreas de atuação. Sempre preocupado com a cultura.
6. Se tivesses o poder de transformar o mundo, quais seriam as tuas primeiras atitudes?
R. Falar em igualdade para todos era a ideologia de Jesus. Firme no propósito acabou crucificado. Muita gente aproveita-se da premissa, como novidade, algo original, haja vista a posição dos nossos líderes. Quantas blasfêmias!...
Sempre haverá dominadores e dominados (maior fatia). O que faria, era eliminar as mazelas dramáticas as quais presenciamos: as guerras, a violência, a facilidade do uso do tóxico. Seria necessário investir muito no social para dar condições de vida àqueles que "vivem". Também não são propostas nada originais. Apenas desejo de todos que possuem sensibilidade; diria dos dominados esclarecidos, cuja arma, que possuem, é a caneta, denunciando, sugerindo ou apontando a triste realidade. Muita coisa se fez, mas há muito mais por fazer. O hiato é muito grande.
7. O que gostaria que o público soubesse sobre ti e tua obra?
R. Considero-me um iniciante a procura de caminhos distintos, embora o meu envolvimento na prática tenha ocorrido a partir de 1980 quando lecionava em uma escola religiosa (Escola Paroquial São Francisco de Assis), no Município de Duque de Caxias - Rio de Janeiro. Dava aulas de língua portuguesa e procurava enfatizar a redação, interpretação de texto, inclusive, poesias, abrindo um caminho para a importância da Literatura. Acompanhava a turma de quinta a oitava séries. Conhecia bem os defeitos e virtudes dos meus alunos. Via-os como filhos e não como alunos. Proposto o tema, desenvolvíamos em sala de aula. O primeiro texto a ser lido era o meu. Instigava-os à leitura. Quais os mais corajosos: os meninos ou as meninas?. A partir da leitura do primeiro corajoso(a), comentava-os e sempre de forma positiva. A adesão era excelente e o medo de escrever ia desaparecendo. Na oitava série editava um livro (xerox) com tiragem estimada e cada página era composta com uma poesia de cada aluno da turma (feitas de surpresa em sala de aula). Os alunos compravam-no, a fim de angariarmos recursos para realização de um passeio ao SESC (Colônia de Férias) e o tradicional almoço de despedidas entre alunos e professores. O título do livro era "Escrevendo". A capa era desenhada por um aluno. Além da preocupação com a festa de formatura, durante o ano letivo.
Acredito que procurei dar minha parcela à educação. Considero-me realizado. As técnicas que hoje vejo sendo implementadas, eram aplicadas por mim desde a década de oitenta. Isto sem falar nas gincanas e maratonas da língua portuguesa que realizava.
8. Qual a tua opinião sobre o trabalho da ALPAS XXI na divulgação de novos autores?
R. Já fiz várias referências elogiosas, por e-mail, a respeito. É um trabalho de suma importância. Nota-se a preocupação de preservar e ampliar a cultura através de concursos e editoração de Antologias. Oferece oportunidades àqueles que pretendem engendrar pelos caminhos da Literatura. Parabéns à ALPAS XXI e abnegados colaboradores. A semente plantada está germinando!...
9. Se pudesses traçar um plano de desenvolvimento econômico-político-social para o Brasil, quais seriam as tuas principais metas?
R. O mundo está cada vez mais veloz. É preciso dar uma parada, não como retrocesso, para geração de empregos. O Brasil faz parte do mundo e, nesta parte, está carente. Em concomitância investiria primeiro na EDUCAÇÃO; segundo na EDUCAÇÃO; e, em terceiro na SAÚDE. No que se refere à SEGURANÇA, não haveria tanta necessidade, porque o povo bem educado, bem alimentado e com boa saúde não cria problemas de segurança. Fica inviável resolver problemas em cima de conseqüências. Distribuição de cestas-básicas ou similares não resolvem a situação, conduz à acomodação e os conflitos sociais persistirão. Haja munição! Haja bala perdida!... Não viemos ao mundo para isso.
10. Com vês a literatura no Brasil atual?
R. Recentemente, li artigo do Prof. Arnaldo Niskier, publicado no Jornal de Letras (da Academia Brasileira de Letras) que o estudo da Literatura seria em separado (opcional) no ensino médio. Desta forma fica meio complicado antever o futuro. Se de fato o assunto não for reavaliado, pelos técnicos do MEC, produzirá um esvaziamento semântico nos estudantes e futuros dirigentes do país.
A Literatura está inserida no contexto social como disciplina importante, dado as conotações políticas, filosóficas, históricas etc. Não pode ser opcional como se pretende. Revela um instrumento poderoso de denúncia, ou fotografias de épocas através das palavras. Oferece o testemunho de uma verdade, subjetiva, aos olhos do leitor.

Respostas breves:
1. Preferes escrever prosa ou poesia?
R. No momento tenho dado ênfase à poesia.
2. Quais os teus autores prediletos?
R. Machado de Assis, Manuel Bandeira, Olavo Bilac, Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Camilo Pessanha , Fernando Pessoa (e heterônimos) e tantos mais. Acredito tenha sido muito injusto.
3. Quais são as temáticas que mais desenvolves em tua obra?
R. Fico preso à crítica social sem esquecer do passado. Procuro sempre me questionar sobre tudo que ocorre no mundo à procura de explicações. Talvez o meu eu romântico esteja escondido. Poucas vezes dá sinal. O mundo está em crise. Encontrei o motivo.
4. Qual o teu lazer predileto?
R. Ouvir música clássica (Rádio MEC-FM). Quando posso estudo um pouco de música (teclado, piano) para preencher meus espaços vazios e não ver o tempo passar.
5. Qual o teu objetivo mais urgente?
R. Fazer um curso de alfabetização de adultos para um trabalho voluntário.
6. Qual o animal com o qual mais te identificas?
R. Gosto de gato preto, não sei explicar o porquê.
7. Quem personifica a inspiração da poeticidade em tuas obras?
R. É o emocional quem estabelece o ato. Não tenho hora certa para escrever. Já escrevi viajando em ônibus, metrô, em plena rua. Muita das vezes nasce o esboço para ser burilado ou trabalhado em casa. Será que se trate de herança parnasiana? Não sei como explicar.

Nota: Procurei a maior fidelidade possível. Agradar a todos é missão impossível. Aqueles internautas que dela tomarem conhecimento, fica o meu abraço fraterno.

Lembretes:
"Amigo é o que ampara em silêncio".
André Luís,
In: Agenda Cristã.
"Quanto mais se dá, na horizontal, tanto mais recebe, na vertical."
Huberto Rohden,
In: O Sermão da Montanha.